Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.


Nos passos de Garamont

(texto originalmente publicado no medium – por Emerson Eller)

Esta família tipográfica é resultado de um trabalho que teve início entre 2018 e 2019 durante o curso Expert Class Type Design realizado no Museu Plantin-Moretus, em Antuérpia, Bélgica.

Drummond está disponível no Adobe Fonts, clique aqui para ativá-la.

Desde as primeiras pesquisas na coleção Plantin-Moretus, fui particularmente atraído por conjuntos de matrizes e punções fragmentados, incompletos e destacados no inventário com anotações incertas ou suposições sobre sua autoria. Penso que esses conjuntos chamaram atenção porque, tal como muitas outras peças bem conhecidas, eles também evidenciam a excelência da tipografia renascentista, embora possam não receber a mesma distinção que outros artefatos amplamente reconhecidos. Além disso, lidar com objeto de estudo fragmentado permitiria mais espaço para pesquisa e imaginação — elementos que aprecio explorar em meu trabalho.

Nesse contexto, fui cativado pelas características do conjunto de matrizes “Mediane Romaine” que, no inventário do acervo Plantin-Moretus é descrito como “uma bela face, no estilo francês do século XVI, semelhante, mas não idêntico ao Mediane Romain usado por Garamont nos livros que ele publicou com Barbé em 1545; aparentemente não usado por Plantin; merece estudo detalhado. […]” (VOET, 1960 p.38).

O alfabeto estava incompleto, mas apresentava caracteres-chave importantes para compreender as características visuais do conjunto (Figura 1).


Apesar da origem incerta dessas matrizes, a pesquisa levou em consideração as características que indicam Claude Garamont (1480–1561) como ponto de partida para o desenvolvimento de uma interpretação tipográfica. Dessa forma, este processo de interpretação se baseia não apenas no conjunto de matrizes mencionado anteriormente, mas também nas formas das letras encontradas nos livros publicados por Jean Barbé (?–1547) em parceria com Garamont.


Figura 1. Conjunto de matrizes MA75, Plantin-Moretus, Antuérpia, Bélgica. (Imagem do autor, 2018)


uma bela face, no estilo francês do século XVI, semelhante, mas não idêntico ao Mediane Romain usado por Garamont


Garamont e Barbé

Os tipos romanos foram introduzidos em Paris por volta de 1530 e logo ganharam destaque: “entre 1530 e 1560, os cortadores de punções parisienses refinaram o design de tipos com uma ampla gama de fontes de excelente qualidade” (Vervliet, 2008, p. 161). Garamont começou a criar tipos nesse período crucial e se destacou em 1541, quando três de suas fontes gregas foram solicitadas para uma série de livros encomendada pela Coroa Francesa e organizada pelo tipógrafo e impressor Robert Estienne (1503–1559).

Vervliet (2008) também ressalta que Garamont teria criado seus romanos “premiere taille” e itálicos iniciais entre 1536 e 1548. De qualquer forma, a partir de 1540 — período em que desenvolveu os tipos romanos que o consagraram — sua influência se espalhou rapidamente pela França e por outros países e, como sabemos, seus modelos, que ficaram mais conhecidos como Garamond, serviram como inspiração para inúmeras fontes que surgiram mais tarde.

Pode-se afirmar que as fontes produzidas por Garamont entre 1530 e 1545 são um dos grandes destaques da tipografia do século XVI (Friedl; Ott; Stein 1998, pp 242). Portanto, mesmo que um modelo desconhecido não tenha sido originalmente criado por Garamont, as indicações nesse sentido podem ser suficientes para atestar a qualidade gráfica e técnica dessa fonte, uma vez que, provavelmente, incorpora algumas das características que se assemelham à excelência de seu trabalho.

Em 1545, Garamont ingressou no ramo editorial em parceria com Jean Barbé (–1547), um livreiro e impressor parisiense mencionado na descrição do conjunto de matrizes citado anteriormente. A obra mais notória de Barbé é provavelmente “Le premier livre d’architecture…”, impresso em 1545 com textos de Sebastiano Serlio (1475–1554). Essa obra permanece como uma edição importante na impressão renascentista francesa e uma fonte histórica significativa para os estudos de arquitetura. Outra edição notável publicada por Barbé é “L’art de la guerre composé par Nic. Machiavelli” de 1546, a qual a Biblioteca Real da Bélgica possui uma cópia (Figura 2).

Figura 2. Details of L’art de la guerre composé par Nic. Machiavelli. Jean Barbé & Claude Garamont, Paris, 1546. Bibliothèque Royale de Belgique, Brussels. (Imagem do autor, 2019)

Além dos tipos romanos, esses livros também apresentavam as itálicas First Great Primer ou Gros-romain, que serviram como base para o desenvolvimento das itálicas deste projeto de design de fonte. Assim, busquei reunir os aspectos visuais das letras encontradas nos livros publicados por Garamont e Barbé e as matrizes disponíveis no Museu Plantin-Moretus (Figura 3) a fim de propor uma interpretação tipográfica.

Figura 3. Microscopic pictures of copper matrices. Museum Plantin-Moretus, Antwerp. (Imagem do autor, 2018)

Dessa forma, este projeto não se trata de um revival fac-símile de uma das fontes criadas por Garamont. Em vez disso, ele representa uma fusão de diferentes referências, explorando tanto o material de metal quanto o impresso, além de experimentos de caligrafia, a fim de incorporar algumas das particularidades que ecoam a excelência das fontes concebidas por Garamont na década de 1540. Como resultado, essa abordagem segue o legado das fontes garamondianas, enquanto entrelaça outras influências na busca por sua própria identidade tipográfica.


Drummond

Sobre o processo de interpretação e design dos tipos, geralmente, costumo iniciar o desenho a partir da letra ‘a’, e neste caso específico, não foi diferente. Isso se deve principalmente às formas distintas da letra ‘a’ neste modelo, como o bojo ligeiramente mais rebaixado e a terminação que não remete a uma forma completamente circular. Capturei imagens da matriz utilizando uma lupa digital e, para processar os materiais impressos, utilizei a ferramenta GlyphCollector. Essa ferramenta seleciona as letras impressas e cria uma imagem média com base na coleção obtida. Apliquei esse processo às letras chave, como ‘a’, ’n’, ‘h’ e assim por diante. Assim, combinei as referências e fiz escolhas para interpretar as formas, permitindo-me imaginar a possível intenção do puncionista, ao mesmo tempo adicionando meu próprio estilo.

Figura 4. Exemplo do processo de interpretação. Da esquerda: aparência média da letra ‘a’ “destilada” por meio do GlyphCollector; análise detalhada com uso de fotografia microscópica; sobreposição de imagens para ajudar no traçado digital; resultado final. (Imagem do autor, 2018/2019)
Figura 5. Exemplo de fotografia e ampliação elaboradas com lupa USB. (Imagem do autor, 2018)

Os tipos renascentistas normalmente revelam em suas formas alguma relação com a caligrafia. Além das itálicas, é possível observar detalhes caligráficos muito interessantes no modelo romano interpretado neste projeto, como a característica “forma de banana” nas hastes das letras ’n’ e ‘m’. Essa característica pode ser notada com mais clareza nas fontes de Francesco Griffo (1450–1518), amplamente utilizadas por Aldus Manutius (1449–1515). A relação entre alguns detalhes nas letras de Garamont e fontes aldinas chamou a atenção desde o início e não tive dúvidas ao decidir ressaltar essas características no digital. Outro detalhe curioso, preservado em minha interpretação, foi a falta da “orelha” direita na letra ‘M’ — nesse caso, há também uma alternate para quem optar pela aparência tradicional com as duas “orelhas”.



Pensada para textos longos, possui uma excelente performance tanto no impresso como na mídia digital. Conta com um conjunto de caracteres latino extenso, que cobre mais de 200 idiomas, recursos OpenType que incluem numerais antigos, tabulares, circulados (positivos e negativos), frações, símbolos monetários, versaletes, superiores e inferiores, setas e manículas — a lista completa pode ser conferida no site da Blackletra.

O nome Drummond — que possui uma sonoridade semelhante à Garamond — é, antes de tudo, uma homenagem ao escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), poeta modernista que reúne em sua obra características universais. Sua poesia é versátil, conseguindo soar simples e sofisticada. Este projeto toma emprestado seu nome e esses atributos, inspirando-se na poética de observar o passado, não se restringindo a simplesmente imitá-lo, mas introduzindo uma nova interpretação para a contemporaneidade.

Publicado em Outubro de 2024


Referências bibliográficas

Machiavelli, N. (1546). L’art de la guerre composé par Nic. Machiavelli, citoien & secrétaire de Florence. L’estat aussi et charge d’un lieutena[n]t general d’armee, par Onosander […]. Paris: chez Ieha[n] Barbé.

Landsberg, J. J. (1545). Enchiridion militae christianae.. Paris: Joanne Barbeo & Claudio Garamontio.

Ministère de la Culture. (n.d.). Claude Garamont. Retrieved February 11, 2019, from https://webol.wordpress.com/2011/11/26/claude-garamont/

Renouard, P. (2011). Imprimeurs parisiens, libraires, fondeurs de caractères et correcteurs d’imprimerie. New York: Cambridge University Press, pp.16, 17.

Vervliet, H. D. L. (2008). The Palaeotypography of the French Renaissance: selected papers on sixteenth-century typefaces. Leiden: Brill.

Voet, L. et al. (1960). Inventory of the Plantin-Moretus Museum-Punches and Matrices. Antwerp: Museum Plantin-Moretus.

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1. Garamond or Garamont? http://typefoundry.blogspot.com/2011/04/garamond-or-garamont.html

2. O curso EcTd é ministrado pelo designer de tipos, produtor de fontes, desenvolvedor de software e professor sênior Dr. Frank E. Blokland.




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